MALAGUETA DO DESERTO
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MINHAS LEMBRANÇAS FUTURAS (ENTRE O QUE AINDA NÃO VIVO E O QUE JÁ ME HABITA)

MINHAS LEMBRANÇAS FUTURAS (ENTRE O QUE AINDA NÃO VIVO E O QUE JÁ ME HABITA)

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MINHAS LEMBRANÇAS FUTURAS
(ENTRE O QUE AINDA NÃO VIVO E O QUE JÁ ME HABITA)

Há expressões que nascem de um tropeço da alma. “Minhas lembranças futuras” é uma delas: mistura o que ainda não vivi com aquilo que já me visita por dentro. Falo das memórias que criarei amanhã, do futuro que, quando chegar, se vestirá de lembrança e repousará ao meu lado, como minha amada esposa.
Há lembranças que ainda não nasceram, mas já me habitam — sombras do que ainda não vivi, memórias em gestação, dormindo no escuro do tempo, à espera do clarão do instante. Imagino-as como fotografias ainda por revelar, guardadas no silêncio do porvir.
Não sei de onde vêm essas lembranças futuras. Talvez do desejo, talvez da intuição ou de um certo dom da alma em pressentir aquilo que lhe será caro. Pode ser apenas esperança disfarçada de recordação — um jeito de o coração se adiantar ao relógio para que a vida não o pegue de calças curtas.
Às vezes, pego-me imaginando minha velhice — essa senhora que já vem me mandando recados há tempos. Serei um velho de memória minguada, chamando Nireida, minha irmã, de “Seu Zé”, falando com Aila, minha outra irmã, pensando tratar-se de Clara Nunes, e esquecendo o nome de Aracati, onde nasci? Morrerei em casa, cercado de cheiros conhecidos, ou num abrigo qualquer, jogando dominó com um sujeito desconhecido que jura ter lutado contra Napoleão Bonaparte?
E se eu ficar surdo? Paciência! O mundo ficará mudo, mas o coração ainda fará barulho. Pior seria ficar sem assunto — uma mobília encostada, sem serventia. Que pelo menos alguém ainda me escute, ainda que eu conte uma história quatro vezes, sempre com a emoção da primeira.
Mas o que mais me visita nessas lembranças que ainda não chegaram é a imagem do meu bisneto Jorge. Ah, o pequeno Jorge! Já o vejo, de calção e pés descalços, correndo pelo quintal, chutando bola dentro de casa e quebrando o jarro da sala. Imagino-o perguntando:
— Vozão, o senhor era doido assim mesmo quando era novo?
E eu, no fundo da rede, me engasgarei de rir, satisfeito, porque o amor, quando é grande, tolera até desaforo.
Será torcedor do Ceará, como manda a tradição da família, ou resolverá me contrariar, virando Fortaleza só para me aborrecer? Tomara que seja bom aluno, mas, acima de tudo, bom menino. Que cresça curioso, corajoso, com ternura no peito e travessura nos olhos. E que, ao ouvir falar de mim — já no além-mundo —, não sinta falta, mas carinho: um orgulho manso de seu bisavô. E depois se pergunte:
— Onde estará ele?
O tempo, às vezes, parece-me uma estrada de duas mãos: o passado vem ao meu encontro, enquanto o futuro se despede antes mesmo de chegar. É como se o amanhã me mandasse bilhetes cifrados e eu precisasse decifrá-los com o coração — esse tradutor de mistérios que nunca descansa.
Há também lugares que pressinto conhecer: uma praça deserta, coberta de ritiranas — espécie de planta invasora —; uma casa de janelas azuis, perdida no meio do nada, de onde uma voz me chama por um nome que ainda não ouvi.
Vejo meus pais recebendo-me no plano espiritual e, em outras visões, sou eu quem aguarda minha esposa Fátima, com o mesmo sorriso dos primeiros dias. Nessas cenas, o futuro é apenas o passado voltando com outra roupa.
Talvez essas lembranças sejam o nosso modo de continuar existindo nas horas que ainda não vieram. É o coração construindo moradas no amanhã — como quem planta cajueiros para o bisneto colher castanhas e sombra.
E, quando o tempo, esse velho relojoeiro, enfim cumprir o seu giro e o futuro virar passado, hei de sorrir diante de mim mesmo, reconhecendo, com espanto e ternura, que tudo o que vivi já me habitava antes, à espreita do instante certo.
Porque o destino, no fundo, não é um caminho: é uma lembrança que caminha à nossa frente, esperando o momento de nos reencontrar.
Talvez o segredo seja amar tanto a vida que até o futuro tenha vontade de nos lembrar.