MALAGUETA DO DESERTO
← Voltar aos textos
A MULHER QUE COMPRAVA UM PÃO A MAIS

A MULHER QUE COMPRAVA UM PÃO A MAIS

3 leituras
A MULHER QUE COMPRAVA UM PÃO A MAIS

Na Rua Santos Dumont, em Aracati, morou um homem chamado Zé Bento, amigo de meu pai. Sua casa ficava por trás da antiga Cadeia Pública, onde hoje funciona a Câmara Municipal. Esse imóvel, tempos depois, foi a residência do Sr. Alcides Torres.
Zé Bento era um dos mais antigos empregados do Lloyd Brasileiro em Aracati. Na década de 1950, em razão da falência da firma Renato Caminha & Cia., Agente do Lloyd, ocorrida após a morte prematura de seu principal sócio, viu-se obrigado a deixar a cidade e mudar-se para o Rio de Janeiro.
Partiu com o coração apertado, levando na bagagem as poucas coisas que possuía e, na memória, as lembranças de Aracati. Antes de partir, porém, contou uma história que permaneceu guardada entre os aracatienses mais antigos.
Antes de Zé Bento, a casa fora habitada por um homem chamado Diogo e sua esposa, Beatriz. Não me disseram o sobrenome do casal. O tempo, que muitas vezes apaga os nomes, preservou apenas aquilo que realmente importava: um pequeno gesto de Beatriz.
O casal possuía um único filho. Ainda muito jovem, ele deixara Aracati para trabalhar no Banco do Brasil, em uma de suas agências no Recife. A distância e as obrigações profissionais faziam com que suas visitas à casa dos pais fossem cada vez mais raras.
Diogo faleceu por volta de 1948.
Naquela época, os padeiros percorriam as ruas de Aracati vendendo pães de porta em porta. Alguns carregavam grandes cestos de vime; outros equilibravam tabuleiros ou sacos de pano sobre os ombros. Quase sempre conheciam cada família, sabiam quantos pães eram comprados em cada casa e, quando necessário, anotavam a despesa para receber no fim da semana ou do mês.
Todas as tardes, quando o padeiro passava pela Rua Santos Dumont, Diogo e Beatriz compravam dois pães. Eram pães grandes denominados “canelas de alma”.
Eram dois pães para duas pessoas.
Depois da morte do marido, seria natural que Beatriz passasse a comprar apenas um. Contudo, para surpresa do padeiro, ela continuou adquirindo os mesmos dois pães de todas as tardes.
— Dois, dona Beatriz?
— Dois — respondia ela.
O padeiro, conhecedor de sua viuvez, imaginou que se tratasse da força do hábito. Talvez Beatriz ainda não tivesse coragem de reduzir a quantidade. Talvez aquele segundo pão fosse uma maneira de manter Diogo à mesa, como se a morte não tivesse conseguido retirar completamente sua presença da casa.
Afinal, o amor também cria seus costumes.
Há viúvas que conservam durante anos a cadeira do marido no mesmo lugar. Outras não permitem que se mexa em suas roupas. Algumas continuam preparando a comida na quantidade de antes, como se esperassem ouvir, a qualquer momento, os passos daquele que partiu.
O padeiro certamente pensou em alguma coisa assim.
Os vizinhos talvez também tenham percebido que Beatriz continuava comprando dois pães. Mas ninguém lhe perguntou o motivo. Naquele tempo, respeitava-se mais o silêncio das casas e a solidão das pessoas.
E assim se passaram os dias, os meses e os anos.
Todas as tardes, o padeiro chegava e Beatriz comprava dois pães.
Comia apenas um. O destino do outro ninguém conhecia. Apenas um pão separado, dia após dia, dentro de uma casa silenciosa da Rua Santos Dumont.
Em 1949, aproximadamente um ano depois da morte de Diogo, Beatriz também faleceu.
Seu filho, o bancário que morava no Recife, veio a Aracati para o sepultamento e cuidou das providências necessárias. Como não pretendia regressar à cidade, decidiu vender o imóvel. Zé Bento se interessou pela casa, realizou o negócio e, pouco tempo depois, passou a habitá-la.
No dia seguinte ao sepultamento de Beatriz, alguém bateu à porta.
Zé Bento foi atender.
Diante dele estava um homem pobre, de roupas gastas, o rosto castigado pelo sol e pela necessidade. Parecia conhecer muito bem aquela casa.
O homem olhou para dentro, talvez esperando encontrar o semblante bondoso que durante tanto tempo o recebera. Não vendo Beatriz, perguntou, com a simplicidade de quem ignorava a morte e todas as mudanças ocorridas:
— E o pão que dona Beatriz guarda para mim?
Somente naquele instante o mistério foi desfeito.
O segundo pão não era comprado por força do hábito, nem para alimentar a lembrança do marido morto. Era destinado àquele homem, que provavelmente apareceria mais tarde, quando o sol ia declinando e os olhos curiosos dos vizinhos haviam se recolhido.
Durante anos, Beatriz alimentou uma pessoa necessitada sem que ninguém soubesse.
Há pessoas que fazem da caridade um espetáculo. Entregam uma pequena ajuda e desejam que o mundo inteiro fique sabendo. Chamam testemunhas, fazem discursos, procuram os melhores lugares e transformam o sofrimento alheio em cenário para a própria generosidade. Muitas vezes, o valor do auxílio é pequeno, mas o alarde é imenso.
Existem outras pessoas, porém, que praticam a bondade às escuras. Ajudam sem tocar trombetas, sem anunciar seus gestos, sem exigir gratidão e sem colocar o necessitado na humilhante condição de devedor.
Beatriz, durante anos, comprou um pão a mais sem revelar sua finalidade sequer aos vizinhos. Talvez soubesse que a verdadeira caridade não deve ferir a dignidade de quem recebe. Talvez compreendesse que a fome já humilha bastante e não precisava ser transformada em espetáculo.
Não deixou monumentos, placas ou retratos. Seu sobrenome perdeu-se com o passar do tempo. Entretanto, a história do pão atravessou as décadas e chegou até nós.
Mas, para o homem que batia à sua porta, podia ser a diferença entre dormir alimentado e passar a noite com fome. Para Beatriz, talvez representasse somente algumas moedas retiradas de seu pequeno orçamento. Para nós, tornou-se uma lição.
Nunca saberemos quantos pães ela entregou, e se ele lhe agradeceu. Sabemos apenas que, após sua morte, alguém sentiu falta não de seus bens, de sua casa ou de seu dinheiro, mas do pão que ela reservava em silêncio.
E talvez seja essa uma das formas mais bonitas de permanecer no mundo depois da partida: ser lembrado pelo alimento doado a alguém faminto.
Naquela tarde, diante da antiga casa de Beatriz, Zé Bento descobriu que a bondade pode morar muito tempo ao nosso lado sem fazer nenhum ruído.
Às vezes, ela tem apenas o tamanho de um pão.