O SINO QUE TOCOU PARA UM HOMEM SEM FAMÍLIA
O SINO QUE TOCOU PARA UM HOMEM SEM FAMÍLIA
Os aracatienses mais antigos certamente hão de se lembrar de Moisés. Não daquele que, segundo as Escrituras, foi salvo das águas do Nilo, mas de outro, igualmente entregue ao destino das águas: o Moisés que morava debaixo da ponte, tendo como vizinho, amigo e provedor o Rio Jaguaribe.
Antes da construção da Ponte Juscelino Kubitschek, vivia numa pequena casa de taipa coberta de palha, encravada bem perto da margem direita do rio. Não possuía terra, móveis nem qualquer bem que pudesse chamar de seu. Tinha apenas algumas tábuas, apetrechos de pesca e um cachorro sardento chamado Fumaça.
Era pescador de profissão, embora preferisse apanhar siris.
— O siri dá menos trabalho do que o peixe — justificava, com a sabedoria despretensiosa de quem aprendera a medir a vida pelo esforço necessário à sobrevivência.
Talvez Aracati jamais tenha conhecido alguém tão desprovido de tudo quanto Moisés. Não tinha mulher, filhos, irmãos, parentes nem aderentes. Era somente ele, Deus e Fumaça, seu único companheiro.
Também ninguém sabia se algum dia tivera família.
Quando lhe perguntavam pelos pais, permanecia algum tempo calado, olhando as águas. Depois, num daqueles momentos em que a lucidez se confundia com o delírio, respondia com um sorriso amargo:
— Nunca tive pai nem mãe. Nasci do triste cruzamento da lama com o vento.
E ria. Não era um riso de alegria, mas uma espécie de defesa contra a própria desgraça.
Moisés se estabelecera às margens do Jaguaribe por volta de 1955, antes mesmo do início da construção da ponte. Quando ela foi inaugurada, em 1959, mudou-se para debaixo de sua estrutura, aproveitando um recanto próximo à margem que as águas nem sempre alcançavam.
Ali fez morada.
Dormia sobre um estrado de tábuas toscas, muitas delas regurgitadas pelo próprio rio. Nas marés mais altas, a água invadia o lugar, molhava seus poucos pertences e o expulsava da cama. Nessas ocasiões, ele juntava o que podia, procurava um ponto mais elevado e dizia, rindo da própria sorte:
— Hoje o rio resolveu tomar a casa de volta.
Fumaça seguia atrás, fiel como uma sombra.
Moisés não bebia, não fumava e não mendigava. Tirava do Jaguaribe apenas o necessário para matar a fome. Pescava alguns peixes, mas principalmente siris, que cozinhava numa panela escurecida pelo fogo. Se conseguia mais do que precisava, trocava o excedente por farinha, sal, querosene ou um pedaço de rapadura.
O rio era seu maior aliado. Dava-lhe alimento, companhia e, talvez, alguma esperança. Em compensação, também lhe impunha frio, lama, umidade e noites de sobressalto.
O isolamento fizera dele um homem de poucas palavras. Conversava mais com Fumaça e com o Jaguaribe do que com pessoas. Conta-se que, ao entardecer, costumava ficar de pé diante das águas, murmurando uma espécie de oração numa língua que ninguém compreendia.
Talvez nem fosse uma língua.
Poderia ser apenas o modo encontrado por um homem solitário para conversar com aquilo que ainda o escutava.
Não se sabia se Moisés era religioso. Apesar disso, nunca deixava de acompanhar a procissão de São Sebastião, realizada em 20 de janeiro. Colocava-se no fim do cortejo, com os pés descalços, a roupa envelhecida e os olhos semicerrados. Caminhava a certa distância dos demais, balbuciando palavras sem sentido para os fiéis, mas que talvez fossem perfeitamente entendidas pelo santo.
Havia, entretanto, algo na Igreja que o comovia profundamente: o som dos sinos.
Quando eles começavam a tocar, Moisés interrompia o que estivesse fazendo, levantava a cabeça e permanecia imóvel. Arregalava os olhos, como se o chamado viesse diretamente do céu. Depois, fechava-os pela metade e chorava em silêncio.
Sua emoção era ainda maior quando os sinos eram tangidos por Henrique Bacia, considerado, com justiça, o maior sineiro que Aracati conheceu.
Henrique não apenas puxava cordas. Conversava com os sinos. Conhecia o temperamento de cada bronze, a força necessária para cada toque, a diferença entre o chamado festivo, o anúncio de uma morte, a convocação para a missa e o repique das grandes solenidades. Em suas mãos, os sinos não produziam apenas sons: ganhavam voz, sentimento e alma.
Moisés parecia compreender aquela linguagem.
Talvez imaginasse que, enquanto os sinos tocassem, ninguém estaria inteiramente abandonado no mundo.
No meio de sua luta silenciosa pela sobrevivência, Moisés adoeceu. Sem médico, remédio ou alguém que lhe preparasse uma comida quente, foi definhando debaixo da ponte. Fumaça permanecia ao seu lado, deitado junto ao estrado, como se pudesse protegê-lo da morte.
Na tarde de 31 de março de 1961, Sexta-Feira Santa, Moisés fechou os olhos pela última vez.
Eram aproximadamente três horas — a hora em que, segundo a tradição cristã, Jesus morreu na cruz.
Moisés também morreu sem alarde, sem médico, sem vela acesa e sem uma oração humana. Partiu como vivera: pobre, esquecido e quase sozinho. Ao lado do corpo, Fumaça choramingava baixinho, lambendo-lhe as mãos já frias.
Um pescador da Pedra Redonda encontrou-o e levou a notícia à cidade.
Não há registro de como se realizou o sepultamento. As informações guardadas pela memória popular dão conta de que seu corpo foi colocado numa rede e conduzido a um pequeno cemitério clandestino existente nas proximidades do lugar onde vivera.
Era um campo-santo não reconhecido pelas autoridades, porém santo também, considero eu. Afinal, a santidade da terra não vem dos muros que a cercam, mas dos mortos que nela repousam e das lágrimas derramadas sobre suas covas.
Apenas dois homens se dispuseram a transportar o corpo.
Improvisaram uma espécie de mortalha, prenderam a rede a uma vara e iniciaram a caminhada. Fumaça seguia atrás, com o focinho baixo, sem compreender por que seu companheiro não lhe dirigia mais a palavra.
Naquela Sexta-Feira Santa, os sinos das igrejas permaneciam calados.
O costume vinha da antiga liturgia católica do Tríduo Pascal. Desde o “Glória” da Missa da Ceia do Senhor, na Quinta-Feira Santa, os sinos silenciavam em sinal de luto pela paixão e morte de Cristo. Durante a Sexta-Feira Santa e o Sábado Santo, eram substituídos pelas matracas de madeira, de som seco e doloroso.
Na verdade, era a própria Igreja que emudecia diante do sepulcro. Os sinos, associados à alegria e à esperança, somente recuperariam a voz durante o “Glória” da Vigília Pascal, para anunciar a Ressurreição.
Por isso, ninguém esperava ouvir sino algum naquela tarde.
Conta-se, entretanto, que Henrique Bacia soube da morte de Moisés e percebeu que apenas dois homens acompanhavam o enterro. Comoveu-se. Aquele pobre pescador, que tantas vezes chorara ouvindo seus repiques, estava sendo levado para a sepultura como se nunca houvesse existido.
Henrique subiu à torre da Igreja do Senhor do Bonfim.
Talvez tenha hesitado diante das cordas. Sabia que era Sexta-Feira Santa. Sabia que os sinos deveriam permanecer mudos. Mas também sabia que, lá embaixo, um homem sem família fazia sua última viagem acompanhado apenas por dois desconhecidos e um cachorro.
Então segurou a corda.
E tocou.
No primeiro repique, as pessoas estranharam.
No segundo, abriram as portas e foram às janelas.
No terceiro, compreenderam que alguma coisa extraordinária estava acontecendo.
Henrique Bacia tocou como talvez jamais tivesse tocado. Não era um chamado para missa, nem anúncio de festa ou marcação das horas. Era um clamor. Um pedido para que a cidade não permitisse que um de seus filhos fosse enterrado sozinho.
O bronze gemeu, chorou e depois pareceu cantar.
Alguns moradores disseram reconhecer naqueles sons o hino de São Sebastião, o mesmo santo cuja procissão Moisés acompanhava todos os anos, sempre no fim do cortejo. Outros ouviram apenas um repique longo e comovente. Houve ainda quem acreditasse que os sinos tocavam por vontade própria.
O som atravessou as ruas, alcançou as casas, passou sobre os telhados e chegou às margens do Jaguaribe.
Uma mulher saiu à porta e perguntou:
— Quem morreu?
— Foi Moisés, o homem da ponte.
Ela cobriu a cabeça com uma manta e seguiu na direção do enterro.
Um velho fechou a janela, apanhou o chapéu e fez o mesmo. Depois vieram pescadores, lavadeiras, trabalhadores, mulheres com crianças pela mão e pessoas que talvez nunca tivessem trocado uma palavra com o morto.
A cada novo repique, o cortejo aumentava.
Quando os dois homens chegaram ao pequeno cemitério, já não conduziam um desconhecido abandonado. Atrás deles caminhava uma parte da cidade. Na frente de todos, quase encostado à rede, seguia Fumaça, guardando até o fim aquele que fora seu único amigo.
Moisés, que em vida não tivera família, encontrou uma no caminho do enterro.
Não houve padre, discurso nem flores caras. Alguém rezou um Pai-Nosso. Uma mulher colocou sobre a cova um ramo colhido à margem do caminho. Os homens cobriram o corpo com terra, enquanto, ao longe, o sino do Senhor do Bonfim dava seus últimos repiques.
Depois, calou-se novamente.
É possível que algum devoto mais rigoroso tenha considerado impróprio o toque de um sino em plena Sexta-Feira Santa. Prefiro acreditar, porém, que naquele dia não houve desrespeito à Paixão de Cristo.
Houve apenas a continuação de sua mensagem.
O sino quebrou o silêncio não para anunciar uma festa, mas para lembrar que nenhum ser humano deve ser conduzido sozinho à sepultura. Henrique Bacia, com sua grandeza de mestre sineiro, emprestou voz a quem jamais tivera quem falasse por ele.
E Aracati, despertada por aquele bronze, ofereceu a Moisés, na última hora, aquilo que a vida inteira lhe negara: uma família.
Talvez seja essa a lição deixada por aquela Sexta-Feira Santa: a pobreza mais dolorosa não é a falta de dinheiro, de casa ou de bens. É passar pelo mundo sem ser percebido. E a bondade mais verdadeira, muitas vezes, consiste apenas em tocar um sino — ou atender ao seu chamado — para que ninguém parta acreditando que viveu em vão.
Fortaleza, 26 de agosto de 2026
José Nilton Fernandes
Os aracatienses mais antigos certamente hão de se lembrar de Moisés. Não daquele que, segundo as Escrituras, foi salvo das águas do Nilo, mas de outro, igualmente entregue ao destino das águas: o Moisés que morava debaixo da ponte, tendo como vizinho, amigo e provedor o Rio Jaguaribe.
Antes da construção da Ponte Juscelino Kubitschek, vivia numa pequena casa de taipa coberta de palha, encravada bem perto da margem direita do rio. Não possuía terra, móveis nem qualquer bem que pudesse chamar de seu. Tinha apenas algumas tábuas, apetrechos de pesca e um cachorro sardento chamado Fumaça.
Era pescador de profissão, embora preferisse apanhar siris.
— O siri dá menos trabalho do que o peixe — justificava, com a sabedoria despretensiosa de quem aprendera a medir a vida pelo esforço necessário à sobrevivência.
Talvez Aracati jamais tenha conhecido alguém tão desprovido de tudo quanto Moisés. Não tinha mulher, filhos, irmãos, parentes nem aderentes. Era somente ele, Deus e Fumaça, seu único companheiro.
Também ninguém sabia se algum dia tivera família.
Quando lhe perguntavam pelos pais, permanecia algum tempo calado, olhando as águas. Depois, num daqueles momentos em que a lucidez se confundia com o delírio, respondia com um sorriso amargo:
— Nunca tive pai nem mãe. Nasci do triste cruzamento da lama com o vento.
E ria. Não era um riso de alegria, mas uma espécie de defesa contra a própria desgraça.
Moisés se estabelecera às margens do Jaguaribe por volta de 1955, antes mesmo do início da construção da ponte. Quando ela foi inaugurada, em 1959, mudou-se para debaixo de sua estrutura, aproveitando um recanto próximo à margem que as águas nem sempre alcançavam.
Ali fez morada.
Dormia sobre um estrado de tábuas toscas, muitas delas regurgitadas pelo próprio rio. Nas marés mais altas, a água invadia o lugar, molhava seus poucos pertences e o expulsava da cama. Nessas ocasiões, ele juntava o que podia, procurava um ponto mais elevado e dizia, rindo da própria sorte:
— Hoje o rio resolveu tomar a casa de volta.
Fumaça seguia atrás, fiel como uma sombra.
Moisés não bebia, não fumava e não mendigava. Tirava do Jaguaribe apenas o necessário para matar a fome. Pescava alguns peixes, mas principalmente siris, que cozinhava numa panela escurecida pelo fogo. Se conseguia mais do que precisava, trocava o excedente por farinha, sal, querosene ou um pedaço de rapadura.
O rio era seu maior aliado. Dava-lhe alimento, companhia e, talvez, alguma esperança. Em compensação, também lhe impunha frio, lama, umidade e noites de sobressalto.
O isolamento fizera dele um homem de poucas palavras. Conversava mais com Fumaça e com o Jaguaribe do que com pessoas. Conta-se que, ao entardecer, costumava ficar de pé diante das águas, murmurando uma espécie de oração numa língua que ninguém compreendia.
Talvez nem fosse uma língua.
Poderia ser apenas o modo encontrado por um homem solitário para conversar com aquilo que ainda o escutava.
Não se sabia se Moisés era religioso. Apesar disso, nunca deixava de acompanhar a procissão de São Sebastião, realizada em 20 de janeiro. Colocava-se no fim do cortejo, com os pés descalços, a roupa envelhecida e os olhos semicerrados. Caminhava a certa distância dos demais, balbuciando palavras sem sentido para os fiéis, mas que talvez fossem perfeitamente entendidas pelo santo.
Havia, entretanto, algo na Igreja que o comovia profundamente: o som dos sinos.
Quando eles começavam a tocar, Moisés interrompia o que estivesse fazendo, levantava a cabeça e permanecia imóvel. Arregalava os olhos, como se o chamado viesse diretamente do céu. Depois, fechava-os pela metade e chorava em silêncio.
Sua emoção era ainda maior quando os sinos eram tangidos por Henrique Bacia, considerado, com justiça, o maior sineiro que Aracati conheceu.
Henrique não apenas puxava cordas. Conversava com os sinos. Conhecia o temperamento de cada bronze, a força necessária para cada toque, a diferença entre o chamado festivo, o anúncio de uma morte, a convocação para a missa e o repique das grandes solenidades. Em suas mãos, os sinos não produziam apenas sons: ganhavam voz, sentimento e alma.
Moisés parecia compreender aquela linguagem.
Talvez imaginasse que, enquanto os sinos tocassem, ninguém estaria inteiramente abandonado no mundo.
No meio de sua luta silenciosa pela sobrevivência, Moisés adoeceu. Sem médico, remédio ou alguém que lhe preparasse uma comida quente, foi definhando debaixo da ponte. Fumaça permanecia ao seu lado, deitado junto ao estrado, como se pudesse protegê-lo da morte.
Na tarde de 31 de março de 1961, Sexta-Feira Santa, Moisés fechou os olhos pela última vez.
Eram aproximadamente três horas — a hora em que, segundo a tradição cristã, Jesus morreu na cruz.
Moisés também morreu sem alarde, sem médico, sem vela acesa e sem uma oração humana. Partiu como vivera: pobre, esquecido e quase sozinho. Ao lado do corpo, Fumaça choramingava baixinho, lambendo-lhe as mãos já frias.
Um pescador da Pedra Redonda encontrou-o e levou a notícia à cidade.
Não há registro de como se realizou o sepultamento. As informações guardadas pela memória popular dão conta de que seu corpo foi colocado numa rede e conduzido a um pequeno cemitério clandestino existente nas proximidades do lugar onde vivera.
Era um campo-santo não reconhecido pelas autoridades, porém santo também, considero eu. Afinal, a santidade da terra não vem dos muros que a cercam, mas dos mortos que nela repousam e das lágrimas derramadas sobre suas covas.
Apenas dois homens se dispuseram a transportar o corpo.
Improvisaram uma espécie de mortalha, prenderam a rede a uma vara e iniciaram a caminhada. Fumaça seguia atrás, com o focinho baixo, sem compreender por que seu companheiro não lhe dirigia mais a palavra.
Naquela Sexta-Feira Santa, os sinos das igrejas permaneciam calados.
O costume vinha da antiga liturgia católica do Tríduo Pascal. Desde o “Glória” da Missa da Ceia do Senhor, na Quinta-Feira Santa, os sinos silenciavam em sinal de luto pela paixão e morte de Cristo. Durante a Sexta-Feira Santa e o Sábado Santo, eram substituídos pelas matracas de madeira, de som seco e doloroso.
Na verdade, era a própria Igreja que emudecia diante do sepulcro. Os sinos, associados à alegria e à esperança, somente recuperariam a voz durante o “Glória” da Vigília Pascal, para anunciar a Ressurreição.
Por isso, ninguém esperava ouvir sino algum naquela tarde.
Conta-se, entretanto, que Henrique Bacia soube da morte de Moisés e percebeu que apenas dois homens acompanhavam o enterro. Comoveu-se. Aquele pobre pescador, que tantas vezes chorara ouvindo seus repiques, estava sendo levado para a sepultura como se nunca houvesse existido.
Henrique subiu à torre da Igreja do Senhor do Bonfim.
Talvez tenha hesitado diante das cordas. Sabia que era Sexta-Feira Santa. Sabia que os sinos deveriam permanecer mudos. Mas também sabia que, lá embaixo, um homem sem família fazia sua última viagem acompanhado apenas por dois desconhecidos e um cachorro.
Então segurou a corda.
E tocou.
No primeiro repique, as pessoas estranharam.
No segundo, abriram as portas e foram às janelas.
No terceiro, compreenderam que alguma coisa extraordinária estava acontecendo.
Henrique Bacia tocou como talvez jamais tivesse tocado. Não era um chamado para missa, nem anúncio de festa ou marcação das horas. Era um clamor. Um pedido para que a cidade não permitisse que um de seus filhos fosse enterrado sozinho.
O bronze gemeu, chorou e depois pareceu cantar.
Alguns moradores disseram reconhecer naqueles sons o hino de São Sebastião, o mesmo santo cuja procissão Moisés acompanhava todos os anos, sempre no fim do cortejo. Outros ouviram apenas um repique longo e comovente. Houve ainda quem acreditasse que os sinos tocavam por vontade própria.
O som atravessou as ruas, alcançou as casas, passou sobre os telhados e chegou às margens do Jaguaribe.
Uma mulher saiu à porta e perguntou:
— Quem morreu?
— Foi Moisés, o homem da ponte.
Ela cobriu a cabeça com uma manta e seguiu na direção do enterro.
Um velho fechou a janela, apanhou o chapéu e fez o mesmo. Depois vieram pescadores, lavadeiras, trabalhadores, mulheres com crianças pela mão e pessoas que talvez nunca tivessem trocado uma palavra com o morto.
A cada novo repique, o cortejo aumentava.
Quando os dois homens chegaram ao pequeno cemitério, já não conduziam um desconhecido abandonado. Atrás deles caminhava uma parte da cidade. Na frente de todos, quase encostado à rede, seguia Fumaça, guardando até o fim aquele que fora seu único amigo.
Moisés, que em vida não tivera família, encontrou uma no caminho do enterro.
Não houve padre, discurso nem flores caras. Alguém rezou um Pai-Nosso. Uma mulher colocou sobre a cova um ramo colhido à margem do caminho. Os homens cobriram o corpo com terra, enquanto, ao longe, o sino do Senhor do Bonfim dava seus últimos repiques.
Depois, calou-se novamente.
É possível que algum devoto mais rigoroso tenha considerado impróprio o toque de um sino em plena Sexta-Feira Santa. Prefiro acreditar, porém, que naquele dia não houve desrespeito à Paixão de Cristo.
Houve apenas a continuação de sua mensagem.
O sino quebrou o silêncio não para anunciar uma festa, mas para lembrar que nenhum ser humano deve ser conduzido sozinho à sepultura. Henrique Bacia, com sua grandeza de mestre sineiro, emprestou voz a quem jamais tivera quem falasse por ele.
E Aracati, despertada por aquele bronze, ofereceu a Moisés, na última hora, aquilo que a vida inteira lhe negara: uma família.
Talvez seja essa a lição deixada por aquela Sexta-Feira Santa: a pobreza mais dolorosa não é a falta de dinheiro, de casa ou de bens. É passar pelo mundo sem ser percebido. E a bondade mais verdadeira, muitas vezes, consiste apenas em tocar um sino — ou atender ao seu chamado — para que ninguém parta acreditando que viveu em vão.
Fortaleza, 26 de agosto de 2026
José Nilton Fernandes