A TESTA DE PEROBA
A TESTA DE PEROBA
Destampando a panela das lembranças, transporto-me aos anos sessenta do século passado, quando ainda morava em Aracati.
Nasci com certa vocação para observar o que se passa ao meu redor: a natureza, o cotidiano e, principalmente, o comportamento humano. Não por maldade, nem para fazer mexerico da vida alheia. É coisa de nascença, atributo que certamente o Criador me deu — e que, ao longo da vida, rendeu algumas histórias.
Naquele tempo, eu vivia perambulando pelas ruas de Aracati à procura de novidades. E também de alguma mocinha que me quisesse, porque a idade de namorar já havia batido à minha porta.
Numa dessas andanças, conheci uma jovem que me aceitou.
Até hoje não sei como.
Na vizinhança de minha pretensa namorada morava um casal que, por razões óbvias, receberá aqui nomes de fantasia.
Ele será doravante, Peroba.
Ela, Jeanne.
Moravam numa casa confortável, com jardim na frente, muro baixo e um vigoroso portão de ferro que permitia a quem passasse pela rua acompanhar, sem muito esforço, parte da vida doméstica.
Jeanne era jovem, bonita, elegante e faceira. A ponto de fazer muitos marmanjos diminuírem o passo quando passavam diante dela.
Peroba também chamava a atenção, mas por outro motivo.
Havia em seu rosto uma particularidade que me intrigava. Sua testa era volumosa e apresentava dois pequenos relevos, um de cada lado, como se alguma coisa ali estivesse querendo nascer, mas ainda não tivesse decidido o quê.
Observei aquilo algumas vezes e depois deixei para lá.
Afinal, a testa era dele.
Peroba tinha hábitos regulares. Todos os dias, por volta das seis da tarde, chegava em casa. Raramente se atrasava. Jeanne costumava esperá-lo junto ao portão.
Era visível a alegria do marido quando a encontrava ali. Sorria, aproximava-se e os dois entravam juntos.
No começo, tudo são flores, garante o velho ditado.
E talvez seja verdade.
O problema é que o tempo, esse relojoeiro carrancudo, às vezes troca as peças sem consultar os donos. Onde havia harmonia, instala desconfiança; onde havia conversa, põe silêncio; e, quando resolve caprichar, abre espaço até para um terceiro personagem.
Não é que o povo de Aracati fosse fofoqueiro.
Longe de mim fazer semelhante acusação.
Mas notícia naquela cidade tinha pernas.
E pernas ligeiras.
Começou a correr à boca miúda que Jeanne estava de novo amor.
Com quem?
Não digo.
Uma coisa é contar história. Outra é procurar confusão depois de velho.
O fato é que Peroba soube.
E, para espanto geral, não deu cavaco.
Não procurou amante para compensar o prejuízo, não fez escândalo, não quebrou cadeira, não ameaçou ninguém. Apenas adotou uma filosofia conjugal muito particular.
Dizia haver cumprido fielmente todas as suas obrigações de marido.
Se Jeanne não cumpria as dela, o problema era dela.
E repetia isso em alto no mercado de Aracati.
O povo ria.
Peroba também.
Quando alguém o encontrava na rua, não perdia a oportunidade:
— E a Jeanne, Peroba? Como vai?
Ele respondia, com a tranquilidade de quem informava a previsão do tempo:
— Vai bem. Muito bem, obrigado.
E o casamento continuava navegando. Se de vento em popa ou fazendo água, ninguém sabia ao certo. Mas navegava.
Até que chegou um desses dias que aparecem nas histórias apenas para desarrumar tudo.
Peroba voltou para casa no horário habitual.
Seis da tarde.
Ao aproximar-se, viu Jeanne no portão.
Até aí, nenhuma novidade.
A novidade estava ao lado dela.
O novo amor.
Qualquer outro homem talvez tivesse parado, gritado, exigido explicações ou feito alguma besteira.
Peroba, não.
No dia seguinte, apareceu no mercado como sempre.
Não demorou para alguém provocá-lo:
— E aí, Peroba!
— E aí!
— Como vai a Jeanne?
— Vai bem.
O curioso insistiu:
— Soube de alguma novidade?
Peroba respondeu com a maior naturalidade:
— Ontem cheguei em casa e ela estava no portão com o novo amor.
Fez-se aquele silêncio que antecede as melhores fofocas.
— E aí, homem? O que foi que você fez?
Peroba ajeitou o corpo, olhou para os curiosos e respondeu:
— Passei entre os dois e nem dei boa-noite!
O mercado veio abaixo em gargalhadas.
Foi então que me lembrei dos dois relevos na testa de Peroba.
Talvez eu tenha interpretado mal.
Aquilo não estava querendo nascer.
Já havia nascido.
E Peroba, pelo visto, era o único homem de Aracati que carregava os próprios chifres com tamanha naturalidade que nem precisava escondê-los.
Fortaleza, 05 de outubro de 2026
José Nilton Fernandes
Destampando a panela das lembranças, transporto-me aos anos sessenta do século passado, quando ainda morava em Aracati.
Nasci com certa vocação para observar o que se passa ao meu redor: a natureza, o cotidiano e, principalmente, o comportamento humano. Não por maldade, nem para fazer mexerico da vida alheia. É coisa de nascença, atributo que certamente o Criador me deu — e que, ao longo da vida, rendeu algumas histórias.
Naquele tempo, eu vivia perambulando pelas ruas de Aracati à procura de novidades. E também de alguma mocinha que me quisesse, porque a idade de namorar já havia batido à minha porta.
Numa dessas andanças, conheci uma jovem que me aceitou.
Até hoje não sei como.
Na vizinhança de minha pretensa namorada morava um casal que, por razões óbvias, receberá aqui nomes de fantasia.
Ele será doravante, Peroba.
Ela, Jeanne.
Moravam numa casa confortável, com jardim na frente, muro baixo e um vigoroso portão de ferro que permitia a quem passasse pela rua acompanhar, sem muito esforço, parte da vida doméstica.
Jeanne era jovem, bonita, elegante e faceira. A ponto de fazer muitos marmanjos diminuírem o passo quando passavam diante dela.
Peroba também chamava a atenção, mas por outro motivo.
Havia em seu rosto uma particularidade que me intrigava. Sua testa era volumosa e apresentava dois pequenos relevos, um de cada lado, como se alguma coisa ali estivesse querendo nascer, mas ainda não tivesse decidido o quê.
Observei aquilo algumas vezes e depois deixei para lá.
Afinal, a testa era dele.
Peroba tinha hábitos regulares. Todos os dias, por volta das seis da tarde, chegava em casa. Raramente se atrasava. Jeanne costumava esperá-lo junto ao portão.
Era visível a alegria do marido quando a encontrava ali. Sorria, aproximava-se e os dois entravam juntos.
No começo, tudo são flores, garante o velho ditado.
E talvez seja verdade.
O problema é que o tempo, esse relojoeiro carrancudo, às vezes troca as peças sem consultar os donos. Onde havia harmonia, instala desconfiança; onde havia conversa, põe silêncio; e, quando resolve caprichar, abre espaço até para um terceiro personagem.
Não é que o povo de Aracati fosse fofoqueiro.
Longe de mim fazer semelhante acusação.
Mas notícia naquela cidade tinha pernas.
E pernas ligeiras.
Começou a correr à boca miúda que Jeanne estava de novo amor.
Com quem?
Não digo.
Uma coisa é contar história. Outra é procurar confusão depois de velho.
O fato é que Peroba soube.
E, para espanto geral, não deu cavaco.
Não procurou amante para compensar o prejuízo, não fez escândalo, não quebrou cadeira, não ameaçou ninguém. Apenas adotou uma filosofia conjugal muito particular.
Dizia haver cumprido fielmente todas as suas obrigações de marido.
Se Jeanne não cumpria as dela, o problema era dela.
E repetia isso em alto no mercado de Aracati.
O povo ria.
Peroba também.
Quando alguém o encontrava na rua, não perdia a oportunidade:
— E a Jeanne, Peroba? Como vai?
Ele respondia, com a tranquilidade de quem informava a previsão do tempo:
— Vai bem. Muito bem, obrigado.
E o casamento continuava navegando. Se de vento em popa ou fazendo água, ninguém sabia ao certo. Mas navegava.
Até que chegou um desses dias que aparecem nas histórias apenas para desarrumar tudo.
Peroba voltou para casa no horário habitual.
Seis da tarde.
Ao aproximar-se, viu Jeanne no portão.
Até aí, nenhuma novidade.
A novidade estava ao lado dela.
O novo amor.
Qualquer outro homem talvez tivesse parado, gritado, exigido explicações ou feito alguma besteira.
Peroba, não.
No dia seguinte, apareceu no mercado como sempre.
Não demorou para alguém provocá-lo:
— E aí, Peroba!
— E aí!
— Como vai a Jeanne?
— Vai bem.
O curioso insistiu:
— Soube de alguma novidade?
Peroba respondeu com a maior naturalidade:
— Ontem cheguei em casa e ela estava no portão com o novo amor.
Fez-se aquele silêncio que antecede as melhores fofocas.
— E aí, homem? O que foi que você fez?
Peroba ajeitou o corpo, olhou para os curiosos e respondeu:
— Passei entre os dois e nem dei boa-noite!
O mercado veio abaixo em gargalhadas.
Foi então que me lembrei dos dois relevos na testa de Peroba.
Talvez eu tenha interpretado mal.
Aquilo não estava querendo nascer.
Já havia nascido.
E Peroba, pelo visto, era o único homem de Aracati que carregava os próprios chifres com tamanha naturalidade que nem precisava escondê-los.
Fortaleza, 05 de outubro de 2026
José Nilton Fernandes