CARTA ABERTA AO AMIGO SÉRGIO MARINHO
CARTA ABERTA AO AMIGO SÉRGIO MARINHO
(in memoriam)
Meu caro Sérgio,
Receba, como fazia todos os anos, meus cumprimentos pelo seu aniversário. Espero que esteja bem, onde quer que a vida tenha encontrado outra maneira de continuar.
Alguns vão estranhar esta carta. Dirão que você nos deixou em 7 de novembro de 2025 e que já não faz sentido lhe dar parabéns. Penso diferente. Há amizades que não se encerram com uma despedida, por mais definitiva que ela pareça.
Não preciso ouvir seu coração para guardar você nas minhas lembranças. Na minha fé, o espírito é eterno, e gosto de imaginar que você vive em outro plano, livre das limitações da matéria e dos ponteiros do relógio.
Esta cartinha seguirá pelo WhatsApp e pelo Facebook, aplicativos que você dominava tão bem. Não sei como andam as comunicações por aí. Talvez dispensem senha, sinal de internet e essas atualizações que tanto nos aborrecem. Mas acredito que, de algum modo, minhas palavras chegarão até você. Quem sabe a saudade tenha meios de entrega que eu ainda desconheço.
Aproveite a ocasião e me conte: como foi a viagem? Quem o recebeu? Houve um abraço conhecido à sua espera?
Tem encontrado os nossos amigos que também fizeram a travessia? Como estão o Pitá, Quinderé, compadre Guilherme, Zé Orlando, René dos Oião, David e tantos outros?
Imagino vocês reunidos, cada qual com seu jeito, suas histórias e aquela risada que eu reconheceria até de olhos fechados. Se houver uma roda de conversa, diga-lhes que sinto falta de todos.
Quanto a mim e à Fátima, vamos seguindo. A saúde anda claudicante: ora melhora, ora piora. Há dias em que o corpo ajuda; em outros, precisamos negociar com ele.
No meu caso, porém, não são apenas os dissabores da idade que incomodam. É a falta de companhia para certas coisas tão pequenas e tão necessárias.
Falta alguém com quem conversar sem olhar a hora. Discutir um assunto e, logo depois, esquecer a discussão. Contar uma piada, tomar umas cervejinhas, rir de uma bobagem. Soltar uma gargalhada e ouvir outra respondendo à minha.
Às vezes, lembro de um caso e penso: “Preciso contar isso ao Sérgio”. Só depois me dou conta de que já não posso telefonar.
É nessa hora que a saudade aperta.
Soube que aí ninguém envelhece. É verdade? Vocês se reconhecem com o rosto dos últimos anos ou com aquele dos tempos em que a vida parecia não ter fim?
E como se divertem? É só rezando? Não me leve a mal a pergunta, mas espero que sobre algum tempo para uma boa prosa. Fazem o quê, afinal? Há música, há histórias, há quem conte vantagem e quem interrompa para corrigir?
Diga alguma coisa. Nem que seja num sonho, desses que deixam a gente sorrindo ao acordar.
Por aqui, além das ausências, temos nossas inquietações. Temo que o país entregue seu destino a alguém cujas ideias me lembrem o nazismo e os horrores de Hitler. Já vimos sofrimento demais para desejar que a história repita suas páginas mais sombrias.
Se tempos assim vierem, pedirei ao Criador alento para atravessá-los, sem perder a esperança nem a capacidade de rir. Quanto à minha viagem, deixarei a partida aos cuidados d’Ele. Ainda tenho a Fátima, os meus e algumas histórias por contar.
Hoje, porém, quero apenas lhe dar os parabéns.
Se houver festa por aí, reúna os amigos. Imaginem-me chegando, puxando uma cadeira e perguntando de que estão rindo.
E, por favor, guardem o assunto. Um dia quero ouvir a história inteira.
Até mais!
Um abraço de quem continua conversando com você na lembrança,
José Nilton Fernandes
Fortaleza, 9 de outubro de 2026.
(in memoriam)
Meu caro Sérgio,
Receba, como fazia todos os anos, meus cumprimentos pelo seu aniversário. Espero que esteja bem, onde quer que a vida tenha encontrado outra maneira de continuar.
Alguns vão estranhar esta carta. Dirão que você nos deixou em 7 de novembro de 2025 e que já não faz sentido lhe dar parabéns. Penso diferente. Há amizades que não se encerram com uma despedida, por mais definitiva que ela pareça.
Não preciso ouvir seu coração para guardar você nas minhas lembranças. Na minha fé, o espírito é eterno, e gosto de imaginar que você vive em outro plano, livre das limitações da matéria e dos ponteiros do relógio.
Esta cartinha seguirá pelo WhatsApp e pelo Facebook, aplicativos que você dominava tão bem. Não sei como andam as comunicações por aí. Talvez dispensem senha, sinal de internet e essas atualizações que tanto nos aborrecem. Mas acredito que, de algum modo, minhas palavras chegarão até você. Quem sabe a saudade tenha meios de entrega que eu ainda desconheço.
Aproveite a ocasião e me conte: como foi a viagem? Quem o recebeu? Houve um abraço conhecido à sua espera?
Tem encontrado os nossos amigos que também fizeram a travessia? Como estão o Pitá, Quinderé, compadre Guilherme, Zé Orlando, René dos Oião, David e tantos outros?
Imagino vocês reunidos, cada qual com seu jeito, suas histórias e aquela risada que eu reconheceria até de olhos fechados. Se houver uma roda de conversa, diga-lhes que sinto falta de todos.
Quanto a mim e à Fátima, vamos seguindo. A saúde anda claudicante: ora melhora, ora piora. Há dias em que o corpo ajuda; em outros, precisamos negociar com ele.
No meu caso, porém, não são apenas os dissabores da idade que incomodam. É a falta de companhia para certas coisas tão pequenas e tão necessárias.
Falta alguém com quem conversar sem olhar a hora. Discutir um assunto e, logo depois, esquecer a discussão. Contar uma piada, tomar umas cervejinhas, rir de uma bobagem. Soltar uma gargalhada e ouvir outra respondendo à minha.
Às vezes, lembro de um caso e penso: “Preciso contar isso ao Sérgio”. Só depois me dou conta de que já não posso telefonar.
É nessa hora que a saudade aperta.
Soube que aí ninguém envelhece. É verdade? Vocês se reconhecem com o rosto dos últimos anos ou com aquele dos tempos em que a vida parecia não ter fim?
E como se divertem? É só rezando? Não me leve a mal a pergunta, mas espero que sobre algum tempo para uma boa prosa. Fazem o quê, afinal? Há música, há histórias, há quem conte vantagem e quem interrompa para corrigir?
Diga alguma coisa. Nem que seja num sonho, desses que deixam a gente sorrindo ao acordar.
Por aqui, além das ausências, temos nossas inquietações. Temo que o país entregue seu destino a alguém cujas ideias me lembrem o nazismo e os horrores de Hitler. Já vimos sofrimento demais para desejar que a história repita suas páginas mais sombrias.
Se tempos assim vierem, pedirei ao Criador alento para atravessá-los, sem perder a esperança nem a capacidade de rir. Quanto à minha viagem, deixarei a partida aos cuidados d’Ele. Ainda tenho a Fátima, os meus e algumas histórias por contar.
Hoje, porém, quero apenas lhe dar os parabéns.
Se houver festa por aí, reúna os amigos. Imaginem-me chegando, puxando uma cadeira e perguntando de que estão rindo.
E, por favor, guardem o assunto. Um dia quero ouvir a história inteira.
Até mais!
Um abraço de quem continua conversando com você na lembrança,
José Nilton Fernandes
Fortaleza, 9 de outubro de 2026.