SE FÓSSEMOS COMO A CHANANA
SE FÔSSEMOS COMO A CHANANA
Entre as plantas do meu limitado conhecimento, nenhuma suscita em mim tamanho interesse quanto aquela denominada chanana.
Ignoro se ela está ciente de sua beleza. É improvável. E talvez seja precisamente por essa razão que sua beleza me pareça ainda mais impressionante.
A chanana não faz distinção de local. Não requer um jardim bem tratado, recipiente de cerâmica, fertilizante específico, nem a dedicação de um jardineiro. Vem ao mundo onde as circunstâncias da vida favorecem seu advento.
Pode-se encontrar na margem de uma estrada, em uma abertura da calçada, adjacente ao asfalto aquecido, no recanto abandonado de um muro ou mesmo em uma pequena fissura entre pedras.
Proporcione-lhe uma adequada quantidade de solo, luz solar e mínimas doses de água, e ela cuidará do restante.
Não reclama.
Desabrocha.
Possivelmente, foi essa a razão pela qual comecei a contemplar como seria o mundo se os indivíduos adquirissem certos ensinamentos com a chanana.
Dedicamos uma considerável parte de nossa vida à busca do local adequado para residir. Almejamos circunstâncias propícias, valoração, bem-estar, segurança e, se viável, um pouco de admiração alheia.
A chanana não.
Ela aceita o papel que a vida lhe confere e se empenha para transformá-lo no melhor lugar do planeta.
Se originou entre rochas, desenvolve-se entre rochas.
Se surgiu à beira da via, adorna a via.
Quando uma roda se aproxima dela, ocorre uma inclinação.
Se o sol castiga, resiste.
Se a chuva demora, espera.
E, quando finalmente abre suas pétalas, não pergunta se alguém está olhando.
Apenas floresce.
Existe, nisso, uma sabedoria que nós, seres humanos, não conseguimos alcançar, mesmo possuindo toda a nossa inteligência.
A chanana igualmente não tem conhecimento da inveja.
Jamais observei uma delas esforçando-se para desenvolver-se de forma mais acelerada em razão de outra ter florescido antes. Não compete em beleza com a vizinha, não anseia por ocupar o espaço do outro e, igualmente, não se entristece pelo fato de uma colega ter recebido mais luz solar.
Cada uma realiza, de maneira silenciosa, o seu destino.
E ainda consegue ser útil.
Além de embelezar os locais onde cresce, é amplamente reconhecida por suas propriedades medicinais. Isto é, ainda que diminuta, disponibiliza o que possui.
Não agride ninguém.
Não menospreza.
Não cultiva mágoas.
Evita propagar boatos.
Não pergunta a quem deve beneficiar.
Faz o bem porque essa parece ser a sua natureza.
Nós, seres humanos, somos muito mais complicados.
Em algumas ocasiões, dispomos de solo fértil, porém não conseguimos prosperar.
Recebemos água e manifestamos insatisfação em relação à quantidade recebida, que não corresponde à esperada.
Há sol, e buscamos abrigo à sombra.
Temos sombra e sentimos falta do sol.
Não são poucas as ocasiões em que negligenciamos a valorização de nossa própria flor, em virtude de estarmos excessivamente concentrados na contemplação do jardim alheio.
A chanana, entretanto, permanece ali.
Minúscula.
Resiliente.
Agradável.
Útil.
Possivelmente, Deus tenha dispersado essas flores ao longo dos caminhos precisamente para que, em algum momento, um transeunte alheio pudesse dedicar-lhe a devida atenção.
Foi o que ocorreu comigo.
Passei a olhar a chanana não apenas como uma planta que teima em nascer onde quase nada deveria nascer, mas como uma pequena demonstração de que as adversidades não precisam determinar aquilo que nos tornamos.
É possível encontrar uma fresta e recomeçar.
É possível viver com pouco sem desejar o mal de quem possui muito.
É possível ser bonito sem vaidade.
Ser forte sem arrogância.
Prestar assistência sem esperar gratificação.
Praticar o bem sem questionar quem observa.
Talvez não precisemos ser tão complicados.
Talvez precisemos apenas aprender a florescer.
Como a chanana.
Fortaleza, 13 de outubro de 2026
José Nilton Fernandes
Entre as plantas do meu limitado conhecimento, nenhuma suscita em mim tamanho interesse quanto aquela denominada chanana.
Ignoro se ela está ciente de sua beleza. É improvável. E talvez seja precisamente por essa razão que sua beleza me pareça ainda mais impressionante.
A chanana não faz distinção de local. Não requer um jardim bem tratado, recipiente de cerâmica, fertilizante específico, nem a dedicação de um jardineiro. Vem ao mundo onde as circunstâncias da vida favorecem seu advento.
Pode-se encontrar na margem de uma estrada, em uma abertura da calçada, adjacente ao asfalto aquecido, no recanto abandonado de um muro ou mesmo em uma pequena fissura entre pedras.
Proporcione-lhe uma adequada quantidade de solo, luz solar e mínimas doses de água, e ela cuidará do restante.
Não reclama.
Desabrocha.
Possivelmente, foi essa a razão pela qual comecei a contemplar como seria o mundo se os indivíduos adquirissem certos ensinamentos com a chanana.
Dedicamos uma considerável parte de nossa vida à busca do local adequado para residir. Almejamos circunstâncias propícias, valoração, bem-estar, segurança e, se viável, um pouco de admiração alheia.
A chanana não.
Ela aceita o papel que a vida lhe confere e se empenha para transformá-lo no melhor lugar do planeta.
Se originou entre rochas, desenvolve-se entre rochas.
Se surgiu à beira da via, adorna a via.
Quando uma roda se aproxima dela, ocorre uma inclinação.
Se o sol castiga, resiste.
Se a chuva demora, espera.
E, quando finalmente abre suas pétalas, não pergunta se alguém está olhando.
Apenas floresce.
Existe, nisso, uma sabedoria que nós, seres humanos, não conseguimos alcançar, mesmo possuindo toda a nossa inteligência.
A chanana igualmente não tem conhecimento da inveja.
Jamais observei uma delas esforçando-se para desenvolver-se de forma mais acelerada em razão de outra ter florescido antes. Não compete em beleza com a vizinha, não anseia por ocupar o espaço do outro e, igualmente, não se entristece pelo fato de uma colega ter recebido mais luz solar.
Cada uma realiza, de maneira silenciosa, o seu destino.
E ainda consegue ser útil.
Além de embelezar os locais onde cresce, é amplamente reconhecida por suas propriedades medicinais. Isto é, ainda que diminuta, disponibiliza o que possui.
Não agride ninguém.
Não menospreza.
Não cultiva mágoas.
Evita propagar boatos.
Não pergunta a quem deve beneficiar.
Faz o bem porque essa parece ser a sua natureza.
Nós, seres humanos, somos muito mais complicados.
Em algumas ocasiões, dispomos de solo fértil, porém não conseguimos prosperar.
Recebemos água e manifestamos insatisfação em relação à quantidade recebida, que não corresponde à esperada.
Há sol, e buscamos abrigo à sombra.
Temos sombra e sentimos falta do sol.
Não são poucas as ocasiões em que negligenciamos a valorização de nossa própria flor, em virtude de estarmos excessivamente concentrados na contemplação do jardim alheio.
A chanana, entretanto, permanece ali.
Minúscula.
Resiliente.
Agradável.
Útil.
Possivelmente, Deus tenha dispersado essas flores ao longo dos caminhos precisamente para que, em algum momento, um transeunte alheio pudesse dedicar-lhe a devida atenção.
Foi o que ocorreu comigo.
Passei a olhar a chanana não apenas como uma planta que teima em nascer onde quase nada deveria nascer, mas como uma pequena demonstração de que as adversidades não precisam determinar aquilo que nos tornamos.
É possível encontrar uma fresta e recomeçar.
É possível viver com pouco sem desejar o mal de quem possui muito.
É possível ser bonito sem vaidade.
Ser forte sem arrogância.
Prestar assistência sem esperar gratificação.
Praticar o bem sem questionar quem observa.
Talvez não precisemos ser tão complicados.
Talvez precisemos apenas aprender a florescer.
Como a chanana.
Fortaleza, 13 de outubro de 2026
José Nilton Fernandes