MALAGUETA DO DESERTO
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O ESPÍRITA NÃO É NACIONALISTA

O ESPÍRITA NÃO É NACIONALISTA

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O ESPÍRITO NÃO É NACIONALISTA?
Estive recentemente em Aracati durante o II Festival do Camarão do Vale do Jaguaribe. Matei parte das saudades da cidade onde nasci, embora tenha descoberto uma verdade melancólica: é possível regressar ao território da nossa infância e, ainda assim, sentir-se estrangeiro.
Andei pelas ruas procurando rostos conhecidos. Encontrei apenas o silêncio das fachadas. As casas permaneciam em seus lugares, algumas modificadas pela modernidade, outras envelhecidas pela paciência do tempo. Mas as pessoas que davam alma àquela paisagem haviam partido ou simplesmente seguido os seus destinos. É uma sensação plúmbea descobrir que o tempo também nos exila da nossa própria história.
No dia seguinte, fui ao Cumbe, essa maravilha rara que Deus esculpiu entre dunas, coqueirais e águas, talvez para provar que, quando está inspirado, a geografia se transforma em poesia visual.
Fomos almoçar no Restaurante do Xavier. Ao lado de nossa mesa, dois homens conversavam em volume suficiente para dispensar qualquer esforço de minha parte. Na verdade, ouvi-los não era uma escolha; era uma imposição da acústica local. Um se chamava César, o mais velho. O outro, André. Fiquei sabendo os nomes deles de tanto que um chamava o outro a cada dois minutos — efeito da cerveja, imagino.
Falavam sobre o Espiritismo. César defendia, com solenidade, que a morte não representa o fim. É apenas uma passagem: o espírito abandona a veste carnal e retorna ao mundo espiritual, sua verdadeira pátria. André escutou, coçou o queixo, com os olhos fixos no horizonte, e perguntou:
— Se a nossa verdadeira pátria é lá, por que ninguém deseja regressar?
César tentou explicar que o espírito é eterno e a nossa permanência na Terra é apenas um breve estágio. André não se deu por vencido:
— Pois é justamente isso que me intriga. Se estamos aqui apenas de passagem e lá é a nossa verdadeira casa, por que a humanidade se empenha tanto em adiar o retorno?
O camarão chegou à mesa, mas confesso que, naquele momento, a filosofia espontânea de César e André era o alimento mais interessante.
— O medo da cessação da vida — justificou César — decorre do instinto de conservação, que é inerente à carne.
— Então o instinto de conservação é mais poderoso do que a própria saudade do paraíso? — rebateu André, com uma lucidez desconcertante.
César silenciou por alguns segundos, contemplando as nuvens em busca de uma resposta convincente. André aproveitou a trégua:
— Não conheço alma viva, César, nem mesmo o Sumo Pontífice, que acorde pela manhã, contemple a aurora e diga: “Que dia maravilhoso! Tomara que seja o meu último.”
Quase engasguei. A conversa começava a ficar muito perigosa para quem estivesse em meio a uma garfada.
— Todos desejam o céu — continuou André. — O mistério é que ninguém tem pressa de embarcar.
Aquilo me pareceu uma síntese perfeita da nossa fragilidade. Passamos a vida a suplicar pela longevidade, enquanto resistimos ao destino que dizemos glorioso. Fazemos exames, engolimos pílulas, caminhamos ao romper do dia, controlamos o colesterol, medimos a pressão arterial. Evitamos o açúcar, a gordura, o sal e tudo aquilo que confere sabor e celebração à existência. Há quem se submeta a dietas rigorosas, privando-se dos prazeres da mesa apenas para acrescentar alguns anos ao calendário. Tudo para retardar a viagem rumo a esse lugar que afirmamos ser paradisíaco. Há uma contradição deliciosamente humana nessa resistência.
Se alguém lhe dissesse: “Ganhou uma viagem para Paris!”, a reação imediata seria perguntar a data do voo. Mas, se lhe dissessem: “Foi agraciado com uma vaga no paraíso!”, a resposta provável seria: “Não seria possível transferir para mais tarde?”
André ainda guardava o seu melhor argumento:
— E há outro ponto. Afirmam que, após algum tempo no plano espiritual, muitos espíritos pedem para reencarnar. Quer dizer que o viajante finalmente chega ao lar e, logo em seguida, sente saudades da estrada?
— A reencarnação é o método necessário para o aprendizado e a evolução da alma — pontuou César.
— Então a Terra é uma espécie de escola?
— Podemos defini-la assim.
— Uma escola de exames severos, presumo.
— E com direito à repetência — arrematou César, rendendo-se ao sorriso.
Foi então que surgiu a interrogação que praticamente encerrou o debate:
— Ora, se o mundo espiritual é a nossa pátria definitiva e vivemos a tentar prolongar a estada por aqui, o espírito não sofreria de uma falta de nacionalismo?
César arregalou os olhos. Inclinei a cabeça para disfarçar o riso. A pergunta guardava um absurdo refinado e, justamente por isso, uma inteligência brilhante. Imaginei um espírito recém-chegado ao paraíso que, entediado diante da simetria e da perfeição celestial, perguntasse ao primeiro anjo que encontrasse: “Com licença. Sabe me dizer quando parte o próximo transporte para Fortaleza?” Ou, por ser um fantasma nascido em Aracati: “Haveria alguma topic que passe pelo lado do Jaguaribe?”
André, entretanto, suavizou o tom, buscando um exemplo de peso: lembrou que mesmo as principais figuras da história da humanidade, no momento final, hesitaram diante do desconhecido e sentiram o peso do adeus.
César argumentou que a gravidade desse instante não se resume ao mero medo físico, mas à transição misteriosa entre o visível e o invisível. Compreendi a ponderação de César, mas era evidente que André não procurava dogmas ou respostas prontas. Desejava a provocação. E provocava com a destreza de quem conhece a fundo as ironias da alma humana.
Fiquei a pensar que o mistério não se decifra com teses acadêmicas, pois os sentimentos recusam-se a caber em molduras rígidas. Talvez o que nos prende à Terra não seja a descrença no além, mas o encantamento sincero pelas pequenas delicadezas do agora.
Amamos a vida pela beleza miúda que ela nos oferece: a presença de um filho, o aconchego de uma mulher, a lealdade de um amigo antigo. Prendem-nos o contorno de uma rua esquecida, o aroma denso do café passado na hora e aquela calçada sob o sol onde o menino que fomos desenhou os primeiros passos.
Somos obras do Rio Jaguaribe a deslizar, alheio às nossas urgências, e do vento sussurrante que se perde nos coqueirais do Cumbe. É a própria memória que nos amarra à matéria.
Se as décadas nos transformam em forasteiros no berço de nossa infância, que profunda estranheza sentiremos ao residir no eterno?
Desamparar o que conhecemos dói. Talvez por isso, mesmo intuindo a existência de um território superior, ninguém tenha pressa de requerer a partida. O ser humano é esse viajante singular que, enviado a uma terra de passagem, acaba por se apaixonar perdidamente pelo chão do próprio exílio.
Há também uma explicação menos filosófica e mais sensível. Naquela hora, diante de uma travessa fumegante de camarões, contemplando a brancura das dunas do Cumbe e recebendo o sopro suave de uma brisa marítima, pensei comigo: se César estiver certo e houver mesmo um lugar de luz à nossa espera, excelente. Espero encontrá-lo um dia. Mas, se não for uma inconveniência para as autoridades celestes... não precisa ser tão cedo. Deixa-me decidir.
Na hora de pagar a conta, o garçom me perguntou:
— Você ouviu essa lenga-lenga?
— Ouvi, sim.
E o garçom saiu-se com esta:
— Quem está aqui não quer ir para lá! E quem está lá — que é o seu lugar — quer voltar.
Durma com um barulho desse!
Fortaleza, 17 de outubro de 2026
José Nilton Fernandes