O CRACHÁ DE ELVIRA
O CRACHÁ DE ELVIRA
Menino presta atenção a tudo. Até mesmo namoro proibido, coisa que ele ainda não entende, mas guarda na memória para compreender muitos anos depois.
Quando a noite chegava à Rua Santos Dumont, tornava-se quase impossível jogar bola de meia. A iluminação pública permanecia num estado indeciso entre o claro e a escuridão: não clareava suficientemente para permitir a brincadeira, nem escurecia de vez para mandar todo mundo entrar. Os postes pareciam iluminar apenas a própria lâmpada.
Restava-nos ficar sentados nas calçadas, bispando o que acontecia na rua. Menino desocupado possui olhos de vigia, ouvidos de morcego e uma curiosidade que atravessa até parede de tijolo.
Foi assim que acompanhei o início de um namoro proibido entre um rapaz chamado Maurício e uma jovem de minha vizinhança, cujo verdadeiro nome prefiro omitir, em respeito à sua memória. Para fins literários, chamá-la-ei Elvira.
Elvira tinha 17 anos. Maurício, 18.
Segundo se comentava, o pai da moça, funcionário de uma empresa exportadora de sal, não aprovava o relacionamento. A razão seria o fato de Maurício nunca haver estudado.
Mesmo aos olhos de uma criança, aquela proibição parecia absurda. Talvez eu ainda não soubesse explicar o que eram intolerância e preconceito, mas já percebia haver alguma coisa errada em medir o valor de uma pessoa apenas pelos anos que passara numa escola. Até porque diploma nunca foi garantia de bom marido. Se fosse, toda mulher procuraria casamento na porta de uma faculdade.
Maurício passava grande parte do dia pescando de anzol nas imediações da Barreira Preta. Não pescava por necessidade. Fazia aquilo por gosto, pois seu pai — cujo nome caiu no buraco do meu esquecimento — era proprietário de uma mercearia bastante sortida e vivia confortavelmente.
Sendo filho único, nada faltava ao rapaz. A não ser, conforme o futuro demonstraria, um pouco de coragem.
Diziam que Elvira amava Maurício mais do que Maurício amava Elvira. Não sei quem inventou essa medida, pois nunca conheci balança capaz de pesar o amor de duas pessoas.
Quando o pai da moça viajava a serviço, geralmente para Areia Branca, no Rio Grande do Norte, Elvira dava um jeito de driblar a vigilância da mãe e encontrar-se com o namorado no escurinho do caminho da Maresinha, então quase desabitada.
A Maresinha parecia ter sido criada especialmente para proteger amores contrariados. O vento apagava os ruídos, a lua se escondia atrás das nuvens e as moitas guardavam segredos melhor do que muito amigo íntimo.
Ali, longe dos olhos do pai, da mãe e da vizinhança, os dois namoravam até tarde. Os beijos demoravam mais do que a viagem do pai de Elvira a Areia Branca. As promessas cresciam, os suspiros se misturavam ao vento e os corações batiam depressa, talvez pelo amor, talvez pelo medo de alguém aparecer.
As aves noturnas acompanhavam tudo de seus poleiros, enquanto os mosquitos, menos românticos, cobravam em picadas o aluguel do esconderijo.
Assim, entre encontros secretos, bilhetes, beijos e promessas, o namoro atravessou aproximadamente dois anos. A Maresinha sabia de tudo, mas nunca contou nada a ninguém.
O imprevisível, porém, gosta de se intrometer na vida dos apaixonados.
Em 1974, ocorreu uma das maiores enchentes do Rio Jaguaribe. Aracati foi evacuada, famílias abandonaram suas casas e muita gente tomou o rumo de outras cidades, levando apenas o indispensável e deixando para trás pedaços inteiros da própria vida.
A família de Maurício mudou-se para Fortaleza. Algum tempo depois, ele seguiu para São Paulo e nunca mais voltou a Aracati.
Elvira perdeu completamente o contato com o namorado. Durante muitos anos, chegou a imaginar que ele tivesse morrido.
O tempo seguiu seu caminho.
Elvira casou-se. Não sei com quem, nem considero isso importante para esta história. Teve a vida que lhe foi possível viver e, quarenta anos depois, ficou viúva.
Nesse mesmo período, um primo seu viajou a São Paulo. Por uma dessas artimanhas do acaso, encontrou Maurício num barzinho do Brás.
Celebraram o encontro diante de algumas garrafas. Entre uma recordação e outra, o primo falou sobre Aracati e contou que Elvira estava viúva.
Maurício lamentou a morte do marido dela e revelou que também havia perdido recentemente a esposa.
O passado, que até então dormia sossegado, abriu os olhos, espreguiçou-se e pediu outra bebida.
Maurício anotou o telefone de Elvira e, poucos dias depois, criou coragem para ligar.
A conversa começou tímida, cercada de perguntas, silêncios e lembranças. Depois, as palavras correram soltas. Falaram da Rua Santos Dumont, da Maresinha, das pescarias na Barreira Preta e das promessas feitas quando ainda moravam em Aracati.
Pelo telefone, as vozes envelhecidas começaram a rejuvenescer. Em poucos minutos, Maurício voltou a ter 18 anos; Elvira, 17. A imaginação realizou o milagre que nenhum médico, remédio ou cirurgia plástica conseguiria fazer.
Reataram, pelo telefone, aquilo que o destino havia desatado.
Seis meses depois, Maurício anunciou que viajaria a Aracati. Finalmente voltariam a se encontrar.
— E como está você? — perguntou Elvira.
— Estou bem. Só perdi os cabelos — respondeu ele.
Depois foi a vez de Maurício perguntar:
— E você? Continua do mesmo jeito?
— Do mesmo jeitinho — exagerou ela.
Na verdade, Elvira não estava exatamente do mesmo jeito. As rugas haviam chegado, o nariz descera um pouco e o corpo ganhara alguns quilos. O espelho, esse funcionário implacável do tempo, provavelmente discordaria da resposta.
Maurício riu e fez uma recomendação:
— Pensando bem, coloque um crachá no pescoço com o seu nome. É melhor prevenir. Quarenta anos são quarenta anos.
Elvira achou graça, mas obedeceu.
No dia combinado, Maurício viajou de São Paulo para Fortaleza e seguiu de ônibus até Aracati.
Chegou por volta das dez horas. Ao descer na rodoviária, pôs-se a procurar a jovem que deixara quatro décadas antes.
Seus olhos buscavam uma moça de 17 anos.
Procuravam o rosto liso, o corpo juvenil e os cabelos de antigamente. Maurício sabia que o tempo havia passado, mas, no fundo de sua memória, Elvira continuava intacta, caminhando às escondidas em direção à Maresinha.
De repente, uma senhora passou diante dele. Trazia ao pescoço um crachá, no qual se lia, em letras grandes:
ELVIRA.
Maurício ficou paralisado.
Olhou novamente, como se esperasse que o nome desaparecesse ou que a senhora se transformasse, por encantamento, na jovem guardada em suas lembranças.
— Não pode ser — murmurou. — Essa não é a mulher que namorei em Aracati.
Era.
Apenas não vinha acompanhada dos 17 anos que ele esperava encontrar.
Maurício, que também já não possuía os cabelos, o rosto nem o corpo de antigamente, esqueceu-se de que o tempo não havia envelhecido apenas Elvira. Talvez imaginasse que suas próprias rugas fossem enfeites de homem maduro, enquanto as dela constituíam imperdoável desobediência à memória.
Faltou-lhe coragem para aproximar-se.
Saiu a pé da rodoviária, tomou o rumo da Cacimba do Povo e desapareceu no matagal, levando consigo o amor que conservara por quarenta anos — não por Elvira, mas pela imagem que fizera dela.
Enquanto isso, Elvira esperava.
Tomou um copo de refresco de murici. Depois, outro. Fumou um cigarro, depois mais um, até consumir a carteira inteira.
Maurício não apareceu.
Elvira voltou para casa levando ao pescoço o crachá que não fora suficiente para fazê-la reconhecida.
Maurício talvez nunca tenha compreendido que a mulher do crachá era, sim, a mesma Elvira. Apenas não trazia consigo os 17 anos que ele esperava reencontrar. E, no entanto, ele próprio também já não possuía os cabelos, o rosto nem o corpo do rapaz que pescava na Barreira Preta.
Nossa mente é uma hábil falsificadora. Guarda a fotografia de uma pessoa, retoca-lhe o rosto, devolve-lhe a juventude e nos convence de que aquele retrato continua verdadeiro. Quando encontramos a pessoa real, julgamos que foi ela quem mudou demais. Não percebemos que o maior engano estava dentro de nós: enquanto o tempo caminhava, nossa memória permanecia parada, escondida no escurinho de alguma Maresinha.
Maurício e Elvira jamais voltaram a se encontrar.
Dizem que ele nunca mais regressou a São Paulo. Permaneceu em Aracati e passou a morar num desses pequenos lugarejos espalhados pelo município. Qual deles? Ninguém soube informar. Talvez tenha escolhido um lugar afastado, onde pudesse envelhecer em silêncio, acompanhado pela lembrança da jovem que procurara na rodoviária e não fora capaz de reconhecer.
Quanto a Elvira, algum tempo depois teria se mudado para São Paulo.
Se isso realmente aconteceu, só Deus sabe.
Talvez tenha ido procurar Maurício justamente na cidade que ele abandonara para ficar perto dela. E assim, por uma última ironia do destino, enquanto Maurício permanecia escondido em algum recanto de Aracati, Elvira caminhava pelas ruas de São Paulo à procura de um homem que já não estava lá.
Passaram quarenta anos separados pela distância. Quando finalmente ficaram próximos, foi a memória que os afastou. Depois, trocaram de lugar no mapa e continuaram procurando um ao outro onde nenhum dos dois mais se encontrava.
A Maresinha, que conhecera o começo daquele amor, talvez saiba o final. Mas, fiel aos antigos namorados, nunca contou nada a ninguém.
Fortaleza, 29 de outubro de 2026
José Nilton Fernandes
Menino presta atenção a tudo. Até mesmo namoro proibido, coisa que ele ainda não entende, mas guarda na memória para compreender muitos anos depois.
Quando a noite chegava à Rua Santos Dumont, tornava-se quase impossível jogar bola de meia. A iluminação pública permanecia num estado indeciso entre o claro e a escuridão: não clareava suficientemente para permitir a brincadeira, nem escurecia de vez para mandar todo mundo entrar. Os postes pareciam iluminar apenas a própria lâmpada.
Restava-nos ficar sentados nas calçadas, bispando o que acontecia na rua. Menino desocupado possui olhos de vigia, ouvidos de morcego e uma curiosidade que atravessa até parede de tijolo.
Foi assim que acompanhei o início de um namoro proibido entre um rapaz chamado Maurício e uma jovem de minha vizinhança, cujo verdadeiro nome prefiro omitir, em respeito à sua memória. Para fins literários, chamá-la-ei Elvira.
Elvira tinha 17 anos. Maurício, 18.
Segundo se comentava, o pai da moça, funcionário de uma empresa exportadora de sal, não aprovava o relacionamento. A razão seria o fato de Maurício nunca haver estudado.
Mesmo aos olhos de uma criança, aquela proibição parecia absurda. Talvez eu ainda não soubesse explicar o que eram intolerância e preconceito, mas já percebia haver alguma coisa errada em medir o valor de uma pessoa apenas pelos anos que passara numa escola. Até porque diploma nunca foi garantia de bom marido. Se fosse, toda mulher procuraria casamento na porta de uma faculdade.
Maurício passava grande parte do dia pescando de anzol nas imediações da Barreira Preta. Não pescava por necessidade. Fazia aquilo por gosto, pois seu pai — cujo nome caiu no buraco do meu esquecimento — era proprietário de uma mercearia bastante sortida e vivia confortavelmente.
Sendo filho único, nada faltava ao rapaz. A não ser, conforme o futuro demonstraria, um pouco de coragem.
Diziam que Elvira amava Maurício mais do que Maurício amava Elvira. Não sei quem inventou essa medida, pois nunca conheci balança capaz de pesar o amor de duas pessoas.
Quando o pai da moça viajava a serviço, geralmente para Areia Branca, no Rio Grande do Norte, Elvira dava um jeito de driblar a vigilância da mãe e encontrar-se com o namorado no escurinho do caminho da Maresinha, então quase desabitada.
A Maresinha parecia ter sido criada especialmente para proteger amores contrariados. O vento apagava os ruídos, a lua se escondia atrás das nuvens e as moitas guardavam segredos melhor do que muito amigo íntimo.
Ali, longe dos olhos do pai, da mãe e da vizinhança, os dois namoravam até tarde. Os beijos demoravam mais do que a viagem do pai de Elvira a Areia Branca. As promessas cresciam, os suspiros se misturavam ao vento e os corações batiam depressa, talvez pelo amor, talvez pelo medo de alguém aparecer.
As aves noturnas acompanhavam tudo de seus poleiros, enquanto os mosquitos, menos românticos, cobravam em picadas o aluguel do esconderijo.
Assim, entre encontros secretos, bilhetes, beijos e promessas, o namoro atravessou aproximadamente dois anos. A Maresinha sabia de tudo, mas nunca contou nada a ninguém.
O imprevisível, porém, gosta de se intrometer na vida dos apaixonados.
Em 1974, ocorreu uma das maiores enchentes do Rio Jaguaribe. Aracati foi evacuada, famílias abandonaram suas casas e muita gente tomou o rumo de outras cidades, levando apenas o indispensável e deixando para trás pedaços inteiros da própria vida.
A família de Maurício mudou-se para Fortaleza. Algum tempo depois, ele seguiu para São Paulo e nunca mais voltou a Aracati.
Elvira perdeu completamente o contato com o namorado. Durante muitos anos, chegou a imaginar que ele tivesse morrido.
O tempo seguiu seu caminho.
Elvira casou-se. Não sei com quem, nem considero isso importante para esta história. Teve a vida que lhe foi possível viver e, quarenta anos depois, ficou viúva.
Nesse mesmo período, um primo seu viajou a São Paulo. Por uma dessas artimanhas do acaso, encontrou Maurício num barzinho do Brás.
Celebraram o encontro diante de algumas garrafas. Entre uma recordação e outra, o primo falou sobre Aracati e contou que Elvira estava viúva.
Maurício lamentou a morte do marido dela e revelou que também havia perdido recentemente a esposa.
O passado, que até então dormia sossegado, abriu os olhos, espreguiçou-se e pediu outra bebida.
Maurício anotou o telefone de Elvira e, poucos dias depois, criou coragem para ligar.
A conversa começou tímida, cercada de perguntas, silêncios e lembranças. Depois, as palavras correram soltas. Falaram da Rua Santos Dumont, da Maresinha, das pescarias na Barreira Preta e das promessas feitas quando ainda moravam em Aracati.
Pelo telefone, as vozes envelhecidas começaram a rejuvenescer. Em poucos minutos, Maurício voltou a ter 18 anos; Elvira, 17. A imaginação realizou o milagre que nenhum médico, remédio ou cirurgia plástica conseguiria fazer.
Reataram, pelo telefone, aquilo que o destino havia desatado.
Seis meses depois, Maurício anunciou que viajaria a Aracati. Finalmente voltariam a se encontrar.
— E como está você? — perguntou Elvira.
— Estou bem. Só perdi os cabelos — respondeu ele.
Depois foi a vez de Maurício perguntar:
— E você? Continua do mesmo jeito?
— Do mesmo jeitinho — exagerou ela.
Na verdade, Elvira não estava exatamente do mesmo jeito. As rugas haviam chegado, o nariz descera um pouco e o corpo ganhara alguns quilos. O espelho, esse funcionário implacável do tempo, provavelmente discordaria da resposta.
Maurício riu e fez uma recomendação:
— Pensando bem, coloque um crachá no pescoço com o seu nome. É melhor prevenir. Quarenta anos são quarenta anos.
Elvira achou graça, mas obedeceu.
No dia combinado, Maurício viajou de São Paulo para Fortaleza e seguiu de ônibus até Aracati.
Chegou por volta das dez horas. Ao descer na rodoviária, pôs-se a procurar a jovem que deixara quatro décadas antes.
Seus olhos buscavam uma moça de 17 anos.
Procuravam o rosto liso, o corpo juvenil e os cabelos de antigamente. Maurício sabia que o tempo havia passado, mas, no fundo de sua memória, Elvira continuava intacta, caminhando às escondidas em direção à Maresinha.
De repente, uma senhora passou diante dele. Trazia ao pescoço um crachá, no qual se lia, em letras grandes:
ELVIRA.
Maurício ficou paralisado.
Olhou novamente, como se esperasse que o nome desaparecesse ou que a senhora se transformasse, por encantamento, na jovem guardada em suas lembranças.
— Não pode ser — murmurou. — Essa não é a mulher que namorei em Aracati.
Era.
Apenas não vinha acompanhada dos 17 anos que ele esperava encontrar.
Maurício, que também já não possuía os cabelos, o rosto nem o corpo de antigamente, esqueceu-se de que o tempo não havia envelhecido apenas Elvira. Talvez imaginasse que suas próprias rugas fossem enfeites de homem maduro, enquanto as dela constituíam imperdoável desobediência à memória.
Faltou-lhe coragem para aproximar-se.
Saiu a pé da rodoviária, tomou o rumo da Cacimba do Povo e desapareceu no matagal, levando consigo o amor que conservara por quarenta anos — não por Elvira, mas pela imagem que fizera dela.
Enquanto isso, Elvira esperava.
Tomou um copo de refresco de murici. Depois, outro. Fumou um cigarro, depois mais um, até consumir a carteira inteira.
Maurício não apareceu.
Elvira voltou para casa levando ao pescoço o crachá que não fora suficiente para fazê-la reconhecida.
Maurício talvez nunca tenha compreendido que a mulher do crachá era, sim, a mesma Elvira. Apenas não trazia consigo os 17 anos que ele esperava reencontrar. E, no entanto, ele próprio também já não possuía os cabelos, o rosto nem o corpo do rapaz que pescava na Barreira Preta.
Nossa mente é uma hábil falsificadora. Guarda a fotografia de uma pessoa, retoca-lhe o rosto, devolve-lhe a juventude e nos convence de que aquele retrato continua verdadeiro. Quando encontramos a pessoa real, julgamos que foi ela quem mudou demais. Não percebemos que o maior engano estava dentro de nós: enquanto o tempo caminhava, nossa memória permanecia parada, escondida no escurinho de alguma Maresinha.
Maurício e Elvira jamais voltaram a se encontrar.
Dizem que ele nunca mais regressou a São Paulo. Permaneceu em Aracati e passou a morar num desses pequenos lugarejos espalhados pelo município. Qual deles? Ninguém soube informar. Talvez tenha escolhido um lugar afastado, onde pudesse envelhecer em silêncio, acompanhado pela lembrança da jovem que procurara na rodoviária e não fora capaz de reconhecer.
Quanto a Elvira, algum tempo depois teria se mudado para São Paulo.
Se isso realmente aconteceu, só Deus sabe.
Talvez tenha ido procurar Maurício justamente na cidade que ele abandonara para ficar perto dela. E assim, por uma última ironia do destino, enquanto Maurício permanecia escondido em algum recanto de Aracati, Elvira caminhava pelas ruas de São Paulo à procura de um homem que já não estava lá.
Passaram quarenta anos separados pela distância. Quando finalmente ficaram próximos, foi a memória que os afastou. Depois, trocaram de lugar no mapa e continuaram procurando um ao outro onde nenhum dos dois mais se encontrava.
A Maresinha, que conhecera o começo daquele amor, talvez saiba o final. Mas, fiel aos antigos namorados, nunca contou nada a ninguém.
Fortaleza, 29 de outubro de 2026
José Nilton Fernandes