MALAGUETA DO DESERTO
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A VERDADE E O GESTO DE AMPARO

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A VERDADE E O GESTO DE AMPARO

Um dos meus primeiros trabalhos em Fortaleza me mostrou que falar a verdade nem sempre é agradável para aqueles que preferem não a escutar. Porém, também ensinou que, ocasionalmente, no meio de uma injustiça, surge uma mão estendida — e essa mão tem o poder de alterar o destino de uma existência.

Tudo começou quando fui aprovado em um concurso público e assumi um emprego federal.

Certa vez, meu chefe entrou na sala e perguntou pelos outros funcionários. Respondi que não sabia onde estavam. Então, ao me olhar, quis descobrir:

— Você é quem? Que estás a fazer aqui?

— Entrei há pouco mais de um mês — respondi. Até o momento, ninguém me deu nenhum trabalho. Eu chego cedo, marco o ponto e fico sentado, à espera de uma atividade.

Eu tinha conhecimento de que os demais colaboradores, todos funcionários públicos federais estáveis, tinham se afastado por razões que me pareciam sem importância. No entanto, limitei-me a expressar o que sabia. Não pensei que aquelas palavras, tão básicas e diretas, poderiam influenciar o curso dos meus dias.

A partir daquele momento, meu chefe passou a me perseguir. Ele era um homem arrogante, de mal com a vida — assim o julguei. Nunca soube ao certo o que tanto o desagradou. Talvez a minha resposta sem rodeios. Ou ele esperava que eu ocultasse a situação. O fato é que, pouco tempo depois, fui transferido para Recife, numa decisão que, a meu ver, contrariava as normas vigentes.

Foi-me imposta a transferência como uma penalidade. Eu já estava adaptado a Fortaleza, para onde viera de Aracati havia cerca de um ano. Dividia uma república com amigos aracatienses e começava a encontrar meu lugar nesta cidade. Se viver na capital já não era simples, imagine então começar tudo de novo numa cidade desconhecida? Meu salário não me permitiria morar sozinho. Havia ainda outras barreiras que, naquele instante, pareciam intransponíveis para superar.

A transferência foi efetivamente concretizada no papel. Vi-me em uma rota que não havia escolhido e para a qual não tinha certeza de como prosseguir.

Então, Maria Diva Rolim entrou nessa narrativa de uma maneira que nunca esquecerei - mesmo sem entender completamente como tudo ocorreu. Ela era a secretária do diretor-geral e eu nem sequer a conhecia. No entanto, ao saber da minha situação, demonstrou apoio e contribuiu para impedir que a transferência se concretizasse de fato.

Não fui para Recife.

Diante de tantas incertezas, surgiu um ato de consideração. Alguém que mal me conhecia percebeu que eu precisava de ajuda e fez algo por mim. Por vezes, grandes discursos não conseguem alterar a vida. Muda com uma palavra pronunciada no momento adequado, com uma decisão tomada em nosso benefício, com alguém pronto para não nos abandonar diante de um desafio.

Dois anos depois, pedi demissão daquele órgão federal para assumir um cargo num banco estatal, onde permaneci até me aposentar. A vida tomou outros rumos, porém aquele gesto permaneceu em mim.

Maria Diva desapareceu completamente. Soube que havia sido transferida para Brasília. Com o passar do tempo, surgiram novos trabalhos, novas preocupações, novas alegrias. Contudo, a recordação dela ficou registrada em um local especial da minha memória.

Hoje, tantos anos depois, expresso minha gratidão a essa mulher que me auxiliou no momento mais crucial da minha vida. Possivelmente ela não tenha noção do quanto aquele suporte representou para mim. Nunca ela soube que, ao evitar uma transferência, contribuiu também para que um jovem de Aracati permanecesse em Fortaleza e prosseguisse com sua vida.

A autêntica gratidão não se desgasta com o passar do tempo. Fica conosco, atravessa os anos e, de vez em quando, pede passagem para ser dita.

Agradeço profundamente, Maria Diva Rolim, independentemente de onde esteja.

Fortaleza, 31 de outubro de 2026
José Nilton Fernandes